Diário de Renato Carvalho - O Inferno, Parte 2.

Sexta-feira, 22 de Maio
    Ratos, ratos e mais ratos! Vi pelo menos 30 desde que sai de casa hoje. Não me admira que algum tipo de doença esteja se propagando pelo estado, as condições precárias de saneamento do local deixam muito a desejar. Mesmo assim, a quantidade enorme de ratos que vi pelas ruas me deixou impressionado...

    A propósito, ninguém foi trabalhar hoje no fórum. Nem mesmo o vigia que cuida do prédio apareceu. Tentei ligar para minha secretária, mas as linhas telefônicas estavam fora do ar, provavelmente por causa das chuvas.
    A cidade estava deserta e coberta pela neblina. Parece mesmo que todo mundo partiu da cidade ou se enfurnou em casa, por causa do surto de dengue – ou seja lá qual for a doença de que todos falam. Na melhor das hipóteses talvez devido a algum feriado local.
    Que inferno! Se ao menos dona Teresa tivesse me avisado, eu não teria nem levantado da cama.

Sábado, 23 de Maio
    Laura não saiu da minha cabeça hoje... Jurei pra mim mesmo que não ia mais pensar nela e no maldito acidente, mas hoje foi impossível. A cada dia que passo me sinto cada vez mais morto, e viver neste isolamento não tem ajudado.
    Tentei dar uma volta a pé para me distrair, mas o dia estava nublado e escuro, igual ao meu estado de espírito. Andei por algumas quadras vazias e voltei pra casa, precisando de mais vodka do que antes. Na volta passei em frente à algumas poucas casas abandonadas...
    Mas que diabos está acontecendo nessa cidade? Um dos vizinhos esqueceu a porta da frente aberta e, pela quantidade de folhas e poeira na entrada, me pareceu que a casa foi abandonada às pressas, há alguns dias. Na verdade, eu não havia me dado conta disso, mas a cidade anda mortalmente silenciosa.

Domingo, 24 de Maio
    Meu Deus!!! O que foi que eu fiz?
    Hoje de manhã um homem moribundo e maltrapilho tentou me atacar enquanto eu varria a calçada de casa. Empurrei ele para trás e o derrubei no chão. Mas ele se levantou cambaleando e veio pra cima de mim novamente. Cristo, como ele fedia!
    Gritei para que ele se afastasse e parasse com aquilo, mas a única resposta que houvi foi um gemido abafado de dor. Pensei que estivesse bêbado ou que fosse louco, mas a forma como ele se movia dava a entender que estava sentindo dores terríveis. Seus olhos estavam injetados e havia sangue coagulado em sua boca e nas unhas.
    Quando ele veio para cima de novo, mandei que recuasse, mas ele insistiu. Então acertei ele na cabeça com toda minha força, usando o cabo da vassoura. Só que a pancada foi tão forte que afundou seu crânio...
    Meu deus... Meu deus!!! Eu matei aquele homem!
    Tentei ligar para a polícia e para a ambulância, mas nenhuma linha telefônica da cidade está com sinal. Levei o corpo para a emergência, mas o hospital municipal estava fechado.
    Eu não podia fazer nada. Deus sabe que não fiz por querer. Provavelmente ele era um indigente, drogado e sem família... Vou enterrá-lo no quintal de casa. Ninguém vai ficar sabendo de nada...

Segunda-feira, 25 de Maio
    Mortos! Estão todos mortos! Por isso a cidade está vazia!
    Saí com o carro e dei uma volta rápida pela área do hotel, procurando alguém com quem conversar, mas o que encontrei vai assombrar meus pesadelos para sempre. No gramado da entrada e dentro do saguão haviam corpos, dezenas deles. Alguns estavam em estado avançado de decomposição, todos com sinal de mordidas e ferimentos horríveis. Tentei me convencer de que fosse um ataque de algum animal selvagem da região, mas eu estava muito, muito errado...
    Perto do bar, na saída para a área da piscina, encontrei duas pessoas, ou algo que pareciam pessoas. Um deles estava vestido como policial, por isso chamei sua atenção. Mas ambos não responderam. Quando me viram, começaram a cambalear e se mover na minha direção. Notei que os dois estavam sujos de sangue e com várias feridas abertas espalhadas pelo corpo.
    Demorei tempo demais pra perceber que estavam mortos... Mortos-vivos...
    Por pouco não fui cercado, pois vários dos corpos no saguão se levantaram e vieram na minha direção. Corri até o carro e fui para a casa o mais rápido que pude. No trajeto me deparei com pelo menos mais duas dezenas de cadáveres ambulantes...
    Desgraça...

Terça-feira, 26 de Maio
    Hoje de madrugada ouvi gritos vindos da rua. Me soaram distantes, talvez vindo de umas duas ou três quadras daqui. Eram gritos masculinos de desespero, depois vieram os de dor. E então cessaram. O silêncio sepulcral da cidade faz com que eu possa ouvir quase tudo o que se passa lá fora.
    Se Serra do Navio fosse uma cidade maior e mais populosa, certamente a infestação teria sido terrível e violenta. Mas graças ao seu porte tudo foi diferente... Por isso a situação demorou tanto para se denunciar.
    Me pergunto sobre o que se passa no resto do estado, mas agora é tarde para ligar a tv... A energia elétrica foi cortada há dias...

Quarta-feira, 27 de Maio
    Eles estão lá fora. Posso ouvi-los gemendo e se lamuriando. Acho que continuam sentindo dor, mas olhando com atenção é possível notar que não lhes resta nada de humanidade. São monstros apodrecidos comedores de carne, nada mais.
    Essa era a doença ou o que quer que tenha sido a causa desse inferno. No meu descaso e falta de interesse por tudo, acabei me alienando e não me preparei com antecedência. Minha única arma é um velho revólver calibre .38, e meu suprimento de comida está quase no fim.
    O carro está estacionado do outro lado da rua, mas já estou quase sem combustível. Minhas opções estão acabando...

Quinta-feira, 28 de Maio
    Muitos! Eles são muitos! Não sei como me encontraram e nem de onde vieram, mas em pouco tempo uma multidão de mortos se juntou ao redor de casa. Pra piorar, a falta de muros no terreno me deixou sem uma retaguarda. Tive que reforçar a saída dos fundos da casa, que são corrediças e de blindex... Maldito estilo americano!
    O cheiro de comida estragada na geladeira se mistura com o fedor apodrecido deles, e os gemidos incessantes misturados com o zumbir das moscas estão me dando nos nervos.
    Agora é tudo uma questão de tempo...

Sexta-feira, 29 de Maio
    Se a terra se tornou o verdadeiro inferno, não há lugar pior para onde eu possa ir, não é mesmo?
    Laura, meu amor, espero que você compreenda a minha situação e minha decisão desesperada. Onde quer que você esteja, saiba que eu te amo e que estou indo de encontro à você.
    Ainda tenho duas balas... Mas apenas uma vai ser o suficiente...

Leia a Primeira parte clicando aqui.



Texto por Matheus Funfas
Colaborador de A Casa de Plástico 
e Colunista do Blog Astronauta das Mares.

2 Comentários:

Damaran disse...

aee =]

Esley Henrique disse...

Rapaz que belo conto de horror xD.

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